terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O JULGAMENTO DE ISRAEL DAMMON


A Nuvem Branca

Dirk Anderson

O Julgamento de Israel Dammon


Foi a descoberta adventista histórica do século. No entanto, alguns dirigentes adventistas provavelmente desejariam que oxalá o descobrimento jamais fosse feito. Em março de 1986, Bruce Weaver, estudante de pós-graduação do Seminário da Universidade Andrews, descobriu um informe jornalístico acerca da detenção e julgamento de Israel Dammon, um dos amigos de Ellen White. O que Weaver descobriu resultaria num chocante informe que abriria os olhos dos devotos de Ellen White.
Bruce descobriu que o informe do periódico diferia amplamente da versão da Sra. White. Por que a diferença? Para compreender isso, devemos viajar no tempo e remontar ao ano de 1845.
Apenas alguns meses se passaram desde o grande Desapontamento. A confusão religiosa, o fanatismo, e as emoções são abundantes entre os mileritas. Os serviços religiosos entre os adventistas têm lugar quase exclusivamente em lares privados. Tipicamente, as reuniões incluem fenômenos tais como "o ósculo ‘santo’ de saudação, gritos e cantos em voz alta, prostrações físicas, lava pés mistos, batismos múltiplos por imersão, estranhas demonstrações de humildade voluntária (arrastar-se, latidos), e as apresentações de uns poucos visionários (a maioria mulheres)."53
No sábado, 16 de fevereiro, Ellen Harmon chega à cidade, procedente de uma reunião em Exeter, Maine, onde suas visões ajudaram a convencer a Irmã Durben de que aceitasse a doutrina da porta fechada. Nessa animada tarde de sábado, está tendo lugar uma reunião de crentes adventistas na casa de Ayer em Atkinson, Maine. A reunião é dirigida pelo antigo capitão de mar Israel Dammon, e tem como atração principal as visionárias senhoritas Dorinda Baker e Ellen Harmon. O Pr. Tiago White também está ali. Talvez uma das mais vívidas descrições da reunião procede de William Crosby, um advogado de 37 anos que a descreveu no tribunal dois dias mais tarde.

"Às vezes falavam todos de uma vez, gritando a todo pulmão.... uma mulher jazia de costas no solo, com uma almofada sob a cabeça; de quando em quando se levantava, e contava uma visão que lhe havia sido revelada... Foi a reunião mais ruidosa a que jamais assisti – não havia ordem nem regularidade, nem nada que se parecesse com alguma outra reunião que eu tivesse freqüentado... "54
O diácono Tiago Rowe acrescentou seu próprio testemunho em relação com a caótica reunião:

"Estava na casa de Ayer por um pouco no domingo passado à noite... Fui jovem, e agora sou velho, e em todos os lugares em que estive nunca vi tal confusão, nem sequer numa farra de bêbados."55
As visionárias eram parte importante do culto naquela noite. Loton Lambert, uma testemunha da reunião, deu o seguinte testemunho juramentado no tribunal:

"Estavam cantando quando eu cheguei – depois de cantar sentaram-se no solo – Dammon disse que uma irmã tinha uma visão para contar – então uma mulher no solo relatou sua visão. Dammon disse que todas as denominações eram de ímpios – mentirosos, libertinos, assassinos, etc.; também criticou a todos os que não eram crentes como ele. Ordenou que saíssemos. Ficamos. Dammon e outros chamavam Imitação de Cristo à mulher que jazia no solo relatando visões. Dammon nos chamou de porcos e diabos, e disse que se fosse o dono da casa nos expulsaria – a mulher a quem chamavam Imitação de Cristo disse à Sra. Woodbury e a outros que deviam abandonar todos os seus amigos ou ir para o inferno. Imitação de Cristo, como a chamavam, permanecia no solo um pouco, depois se erguia, chamava a alguém, e dizia que tinha uma visão que contar-lhe, o que então fazia. Havia uma garota que diziam dever ser batizada naquela noite ou iria para o inferno. Ela chorava amargamente, e queria ver primeiro a mãe; disseram-lhe que tinha que abandonar sua mãe ou iria para o inferno – uma voz disse: Deixem que se vá para o inferno. Ela finalmente foi batizada. Imitação de Cristo contou sua visão a uma prima minha, de que devia ser batizada naquela noite ou iria para o inferno – ela objetou porque já havia sido batizada uma vez. Diziam que Imitação de Cristo era uma mulher de Portland."56
Mais tarde, o dono da casa, Tiago Ayer, confirmou ante o tribunal que a visionária a quem Lambert se referia como "Imitação de Cristo" não era outra senão Ellen Harmon.
"Vi a mulher com uma almofada sob a cabeça – o seu nome é Srta. Ellen Harmon, de Portland. Não a ouvi nem a qualquer outra pessoa dizer algo acerca de Imitação de Cristo."57
Como Ellen Harmon, a outra visionária presente, Dorinda Baker, tinha uma saúde muito precária. A testemnha Joshua Burnham a descreve perante o tribunal:
"Conheço a Srta. Dorinda Baker desde que ela tinha cinco anos – tem bom caráter – agora tem vinte e três ou vinte e quatro anos de idade. É uma moça muito doentia, seu pai gastou U$1.000 com médicos. Eu estive na reunião do sábado à noite – foi convocada para que a jovem contasse suas visões."58
A reunião causou tal alvoroço civil na vizinhança que finalmente alguém chamou as autoridades para que a interrompessem. A Sra. White dá sua versão do que sucedeu quando o delegado chegou para deter a Dammon:
"... enquanto eu falava, dois homens espiavam pela janela. Estávamos seguros de suas intenções. Entraram e passaram rapidamente a meu lado até alcançar o Ancião Damman [sic]. o Espírito do Senhor posou sobre ele, e sua força desapareceu, e caiu ao solo indefeso. O oficial exclamou: ‘Em nome do estado do Maine, agarrem este homem! ’ Dois homens o agarraram pelos braços, e outros dois pelos pés, e tentaram tirá-lo da habitação arrastado. Só o moveram uns poucos centímetros e logo saíram da casa. O poder de Deus estava nessa habitação, e os servos de Deus, com seus semblantes iluminados por sua glória, não ofereciam resistência. Os esforços para tirar o Ancião D. se repetiam com o mesmo resultado. Os homens não podiam suportar o poder de Deus, e era um alívio para eles sair da casa. O número deles aumentou até doze, e ainda o Ancião D. foi retido pelo poder de Deus por uns quarenta minutos, e nem sequer toda a força daqueles homens podia movê-lo do piso onde jazia indefeso. No mesmo momento, todos sentimos que o Ancião D. tinha que ir-se, que Deus havia manifestado seu poder para sua glória, e que o nome do Senhor seria glorificado mais se deixássemos que fosse levado dentre nós. E aqueles homens o levantaram tão facilmente como se levanta uma criança, e o levaram."59
Apesar de ser muito inspiradora a descrição do ocorrido por parte da Sra. White, indicando uma profunda e impressionante intervenção sobrenatural, seu relato difere amplamente daquele das testemunhas ante o tribunal, como aparece no periódico Piscataquis Farmer. Joseph Moulton, o delegado encarregado de prender Dammon, descreve a detenção num testemunho juramentado perante o tribunal:
"Quando fui prender o prisioneiro, fecharam-me a porta. Vendo que não podia alcançá-lo desde fora, forcei a porta. Cheguei até onde estava o prisioneiro, o tomei pela mão, e lhe informei a que viera. Várias mulheres saltaram e o rodearam – elas se agarraram a ele, e ele a elas. Tão grande foi a resistência que eu e três ajudantes não pudemos tirá-lo. Permaneci na casa e pedi mais ajuda; depois que esta chegou, fizemos uma segunda tentativa, com o mesmo resultado – novamente pedi reforço – depois que chegou, os vencemos e o tiramos detido. Tanto os homens como as mulheres ofereceram resistência. Não posso descrever o lugar - era uma gritaria constante."60
O testemunho juramentado de Moulton indica claramente que foram a mulheres e os homens que saltaram para ajudar a Dammon e o retiveram – não o poder de Deus – o que ajudou Dammon a resistir à detenção provisória. É interesante notar que nenhum dos outros trinta ou mais testemunhas durante o julgamento contradisse o testemunho de Moulton acerca de que as mulheres e os homens ajudaram Dammon a resistir à detenção. Esta importante contradição na versão da Sra. White lança dúvidas sobre a integridade do que escreveu. Bruce Weaver explica quão absurdo é supor que o delegado fosse valente o bastante, ou temerário o bastante, para tentar combater contra forças sobrenaturais para prender Dammon:
"Na realidade, se doze homens tentaram fortemente e sem êxito mover um indivíduo que estava prostrado, mas não tendo nenhum outro impedimento, e se houvesse na habitação uma aura poderosa, porém invisível, a ponto de ser ‘um alívio para eles sair apressadamente da casa’ de quando em quando, homens normais se teriam assustado (ou convertido) o suficiente com a experiência para abandonar a missão muito antes de que transcorressem quarenta minutos."61
Depois de passar o fim de semana no cárcere, Dammon compareceu a juízo na segunda-feira. A Sra. White reencena a história de Dammon no julgamento:
"Na hora do julgamento, o Ancião D. estava presente. Um advogado ofereceu seus serviços. A acusação contra o Ancião D. era de que havia alterado a ordem. Muitas testemunhas foram trazidas para sustentar a acusação, mas em seguida seus testemunhos foram desmentidos pelos dos conhecidos do Ancião D. que estavam presentes e que também foram chamados a depor. Havia muita curiosidade por saber no que criam o Ancião D. e seus amigos, e se lhes pediu para apresentar um resumo de sua fé. Então ele lhes falou em tom claro de sua crença a partir das Escrituras. Também sugeriu-se que cantassem algum de seus hinos, e a ele foi pedido que cantasse um. Havia um bom número de vigorosos irmãos presentes que o haviam apoiado durante o julgamento, e o acompanharam a cantar ‘When I was down in Egypt´s land, I heard my Savior was at hand.’ [Quando eu estava na terra do Egito, ouvi que meu Salvador estava perto].
"Foi indagado ao Ancião D. se tinha uma esposa espiritual. Ele respondeu que tinha uma esposa legal, e que podia dar graças a Deus de que ela havia sido uma mulher muito espiritual desde que a havia conhecido. Creio que as custas do processo lhe foram cobradas e foi posto em liberdade."62
O periódico Piscataquis Farmer tinha uma versão do processo um pouco diferente. De acordo com o periódico, foi Dammon que "pediu permissão" para cantar. Durante a etapa de sentença do juízo, foi permitido a Dammon falar em sua defesa:
"Ele [Dammon] argumentou que o dia de graça havia passado, que o número de crentes era reduzido, mas que havia muitos ainda, e que o fim do mundo se daria dentro de uma semana. Depois de consultar, o tribunal sentenciou ao prisioneiro passar dez dias na Casa de Correção..."63
O relato da Sra. White da defesa de Dammon não mencionava que ele usou a "porta fechada" e o iminente regresso de Cristo como parte de sua defesa. Aparentemente, o tribunal não se impressionou com essas crenças extravagantes, e sentenciou Dammon a passar um tempo no cárcere.
Uma das facetas mais interessantes do relato da Sra. White é o que ela deixou fora. Nada disse acerca da gritaria, das prostrações físicas, das demonstrações de humildade voluntária (arrastarem-se, latidos). Aparentemente, estas estavam presentes em muitas das primeiras reuniões adventistas. Lucinda Burdick observou essas atividades fanáticas em reuniões a que assistia com os White:

"Quando os conheci pela primeira vez [Ellen e Tiago White], eram exageradamente fanáticos – costumavam sentar-se no solo em vez de em cadeiras, engatinhar pelo piso como criancinhas. Tais extravagâncias eram consideradas sinais de humildade."64
O propósito dessa atividade de engatinhar não era só para demonstrar humildade. John Doore testificou no tribunal que havia "visto homens e mulheres engatinhar pelo solo sobre mãos e pés." George S. Woodbury disse: "Minha esposa e Dammon passaram pelo piso engatinhando sobre mãos e pés."
Bruce Weaver explica como se praticava essa atividade entre os primeiros adventistas:
"Um correspondente do Norway Advertiser oferece uma descrição do engatinhar que teve lugar na casa do capitão John Megquier em Poland, Maine: ‘Raras vezes se sentam em qualquer posição que não seja sobre o piso desnudo.... na reunião a que ele assistiu, uma mulher se pôs sobre as mãos e pés, e engatinhou por todo o piso como uma criança. Um homem, na mesma posição, a seguiu, chocando-se cabeça com cabeça várias vezes. Outro homem se estendeu de costas sobre a cama em toda sua extensão, e três mulheres o cruzaram com seus corpos."65
Pelos idos de 1894, a Sra. White parece ter mudado de posição quanto às inusitadas atividades praticadas pelos primeiros adventistas:
"Cada parte do serviço de Cristo se caraterizará pelo decoro e a reverência. A verdade de Cristo não pode limitar-se a um certo âmbito, mas será ativa na criação do ambiente, da conduta, dos hábitos, e das práticas que estarão em harmonia com seu Autor. Tudo se fará decentemente e com ordem. Os métodos descontrolados, os caprichos estranhos, e a confusão não estão autorizados pelo Deus de ordem."66
Pode-se certamente pôr em dúvida se as atividades na casa de Dammon estavam "autorizadas pelo Deus de ordem." Outra atividade que a Sra. White não menciona é gritar e cantar em voz alta. De acordo com o testemunho no tribunal por parte do adventista Joel Doore, "o ruído de um sábado pela tarde não é nem a décima parte do que há geralmente nas reuniões a que que assisto."67 É evidente que, no princípio de sua carreira, à Sra. White parecia que gritar era um método eficaz para lutar contra o diabo. Em 1850, escreveu: "Vi que cantar amiúde afasta o inimigo, e gritar o faz retroceder."68 Por volta de 1900, contudo, a Sra. White parecia haver adotado um ponto de vista diferente acerca das reuniões ruidosas:
"Dou meu testemunho, declarando que esses movimentos fanáticos, esse barulho e confusão, foram inspirados pelo espírito de Satanás, que estava operando milagres para enganar, se possível, os próprios escolhidos."69
O relato da Sra. White acerca da detenção e julgamento de Dammon foi publicado em 1860 no livro Spiritual Gifts. Quando esse livro tornou a ser publicado em 1877 com o título de Spirit of Prophecy, o incidente Dammon havia desaparecido. Como muitos de seus primeiros escritos, esta história simplemente desapareceu sem nenhuma explicação. Talvez foi a publicação em 1874 do livro World Crisis pelo antigo ministro adventista Isaac Wellcome o que influenciou na decisão de deixar que a história desaparecesse. Em World Crisis, um Israel Dammon reformado conta sua relação com os White. Explica como perdeu a fé em Ellen White pelo final de 1846 e abandonou sua crença na porta fechada:
"Estivemos relacionados com o Sr. e a Sra. White, e por um tempo tivemos confiança nas visões dela, mas por muitos anos não a temos tido em absoluto. Quando vimos que se contradiziam entre si, renunciamos a elas por completo, e nos aplicamos à Palavra de Deus.
"Passaram-se vinte anos ou mais desde que estivemos associados com a Sra. White. Recordamos perfeitamente, porém, que suas primeiras visões ou sua primeira visão foi contada tanto por ela mesma como por outros (especialmente pela Sra. White) em relação com a prédica da ‘porta fechada,’ e a fomos respaldar. Enquanto estava sob essa influência, e pregando as visões, ela, em visão, viu N. G. Reed e I. Dammon em estado imortal, coroados, no reino. Depois disso, ela os viu finalmente perdidos. Como podiam ser verdade as duas coisas? Penso que uma era tão verdade quanto a outra, e que Deus nunca lhe disse tal coisa."70
Talvez foi melhor que a história de Dammon desaparecesse. Seria difícil explicar como a Sra. White viu a Dammon no céu e mais tarde o viu perdido. Manter a história de Dammon impressa poderia dar lugar a demasiadas perguntas espinhosas. Pelo fim do século dezenove, havia se tornado uma ocorrência demasiado freqüente que os primeiros escritos questionáveis da Sra. White desaparecessem de edições posteriores das mesmas obras. Não era tão provável que uma comunidade religiosa mais e mais educada e diversa se impressionasse com um relato tão fantástico como o de Israel Dammon.
O fato de a versão da história pela Sra. White, com sua dramática descrição de manifestações sobrenaturais, diferir tão amplamente do relato feito ao tribunal dois dias mais tarde por 30 testemunhas, põe em dúvida as outras histórias sobrenaturais que circulam entre os adventistas. Há narrações de que a Sra. White susteve no ar uma pesada Biblia enquanto estava em visão, sem respirar por horas, e outros incidentes incomuns. A. G. Daniells, presidente da Associação Geral dos adventistas do Sétimo Dia, que conheceu a Sra. White por mais de quarenta anos, observa o seguinte sobre essas histórias durante a conferência de 1919 sobre o Espírito de Profecia:
"Por exemplo, tenho ouvido alguns ministros pregar, e vi isso por escrito, que a Irmã White uma vez sustentou uma pesada Bíblia – creio que disseram que pesava 40 libras – com a mão estendida, e, olhando ao céu, citava textos e virava as páginas e indicava os textos, com o olhar dirigido ao céu. Não sei se isso se deu algum vez o não. Não estou seguro. Não o vi, e não sei se alguma vez falei com alguém que o tivesse visto. Contudo, irmãos, não considero esse tipo de coisa como uma grande prova. Não creio que esse seja o melhor tipo de evidência. Se eu fosse um desconhecido em um auditório, e ouvisse um pregador explicando isso, teria minhas dúvidas. Ou seja, eu desejaria saber se ele havia visto isso. E ele teria que dizer: Não, nunca. Então lhe perguntaria: ‘Viu alguma vez o homem que o viu?’ E ele teria que responder: ‘Não, nunca.’ Bem , quanto disso é genuíno, e quanto se introduziu na história?’ Não sei. Mas não creio que esse é o tipo de prova que queremos usar. Já se passou muito tempo desde que eu levantei este tipo de coisas, que não respirava, e que tinha os olhos muito abertos."
Em 1919, era evidente que os dirigentes adventistas estavam prontos para enterrar as caprichosas historietas dos primeiros dias no cemitério do passado. Não só desapareceram de seus escritos as fantásticas histórias, como livros inteiros começaram a desaparecer pelo final do século dezenove...

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